O envelhecimento traz uma série de alterações biomecânicas, vasculares e cutâneas que tornam o pé do idoso um dos maiores desafios da podologia clínica moderna.
A podogeriatria — área especializada na avaliação e cuidado de idosos — desempenha um papel fundamental na prevenção de quedas, úlceras, infecções e limitações funcionais.

Com o aumento da longevidade no Brasil e no mundo, o podólogo torna-se essencial para a manutenção da autonomia, da marcha e da qualidade de vida do idoso.

Este guia reúne fundamentos clínicos, prática profissional e evidências atualizadas para atuação segura e eficiente.


1. Por que o pé do idoso é tão diferente?

O processo natural de envelhecimento provoca alterações que modificam profundamente a biomecânica e o risco de lesões:

1.1. Pele fina, seca e frágil

A redução de colágeno e lipídeos aumenta fissuras, rachaduras e feridas.

1.2. Alterações vasculares

Comuns em idosos:

  • insuficiência arterial

  • insuficiência venosa crônica

  • edema persistente

  • extremidades frias

Esses fatores aumentam o risco de úlceras.

1.3. Perda de sensibilidade

Neuropatias associadas ao envelhecimento (ou doenças como diabetes) dificultam a percepção de dor e agravam lesões silenciosas.

1.4. Mudanças biomecânicas

  • arco plantar alterado

  • rigidez articular

  • dedos em garra

  • alterações de marcha

  • maior pressão no antepé

1.5. Crescimento alterado das unhas

Unhas tendem a ser:

  • mais espessas

  • mais curvadas

  • mais difíceis de cortar

Aumentando onicogrifose, onicocriptose e traumas.


2. Principais riscos e problemas no pé do idoso

2.1. Risco elevado de quedas

A instabilidade postural combinada com dor, deformidades e calçados inadequados gera risco real.

2.2. Úlceras e feridas de difícil cicatrização

Idosos com:

  • diabetes

  • vasculopatias

  • mobilidade reduzida

estão especialmente vulneráveis.

2.3. Infecções

Devido à pele mais frágil e imunidade reduzida.

2.4. Perda funcional

Dor e deformidades podem limitar a mobilidade, reduzir a independência e impactar o bem-estar emocional.


3. Avaliação clínica em podogeriatria

A avaliação deve considerar três pilares:


3.1. Pele e anexos cutâneos

Analise:

  • hidratação

  • fissuras

  • rachaduras

  • calosidades

  • lesões prévias

  • presença de micose (onicomicose/dermatomicose)


3.2. Circulação

Avaliar:

  • coloração

  • temperatura

  • pulsos distais

  • edema

  • retorno venoso

Sinais de alarme:

  • extremidades arroxeadas

  • pele brilhante/esticada

  • ausência de pulso

  • dor em repouso

Encaminhamento vascular é obrigatório.


3.3. Sensibilidade

Testes recomendados:

  • monofilamento 10g

  • diapasão 128 Hz

  • percepção tátil

  • teste de pinçamento leve

Déficits sensoriais aumentam risco de acidentes e feridas.


4. Principais condutas do podólogo na podogeriatria

4.1. Corte técnico das unhas

Indispensável para evitar onicocriptose, traumas e dor.

4.2. Correção de calosidades e hiperqueratose

Reduz pontos de pressão e previne úlceras.

4.3. Hidratação profunda e barreira cutânea

Uso de:

  • ureia (10–20%)

  • ceramidas

  • manteigas vegetais

Evita fissuras e rachaduras dolorosas.

4.4. Manejo de fissuras no calcâneo

Pode exigir:

  • redução cuidadosa

  • hidratação intensiva

  • silicone de proteção

  • órteses preventivas

4.5. Suporte biomecânico

Dependendo da necessidade:

  • órteses em silicone

  • suporte digital

  • alinhamento de dedos

  • palmilhas biomecânicas (quando há alteração de marcha)

4.6. Manejo de onicogrifose e unhas espessas

Cuidados:

  • redução progressiva

  • inspeção de infecções

  • orientação de rotina domiciliar


5. Prevenção de quedas: o papel do podólogo

O podólogo tem impacto direto na prevenção de quedas, uma das maiores causas de hospitalização em idosos.

Fatores que o podólogo controla:

  • dor nos pés

  • deformidades digitais

  • melhora da sensibilidade tátil (quando possível)

  • remoção de hiperqueratose

  • orientação de calçados

  • analisador de marcha (quando disponível)

Intervenções com maior evidência:

  • ortoplastias para redistribuição de pressão

  • orientações de calçados antiderrapantes e flexíveis

  • correção de unhas traumáticas


6. Orientações essenciais ao idoso e familiares

  • cortar unhas sempre retas

  • evitar lixas agressivas

  • manter pele sempre hidratada

  • evitar andar descalço

  • inspecionar os pés diariamente

  • usar meias largas e sem costura

  • preferir calçados com sola macia e estáveis


7. Quando encaminhar?

Encaminhamento deve ser imediato se houver:

  • suspeita de infecção

  • necrose ou ferida de rápida progressão

  • ausência de pulso

  • dor noturna intensa

  • edema persistente

  • suspeita de doença vascular periférica

  • queda recente com dor no pé ou tornozelo


8. Conclusão

O cuidado com o pé do idoso é uma das áreas mais relevantes e de maior impacto social na podologia. Com avaliação criteriosa, manejo adequado e abordagem humanizada, o podólogo não apenas trata, mas previne quedas, preserva a autonomia e melhora a qualidade de vida.

A podogeriatria representa o futuro do cuidado preventivo — e o podólogo é protagonista nesse cenário.


Referências (ABNT)

 

BRASIL. Ministério da Saúde. Envelhecimento e Saúde da Pessoa Idosa. Brasília, 2021.
GARCIA, L.; MONTEIRO, A. Podologia Geriátrica Moderna. São Paulo: 2022.
TOLEDO, I. Alterações ungueais no envelhecimento. Revista Digital de Podologia, 2023.
SANTOS, R. R. et al. Falls in older adults: biomechanical and clinical aspects. Geriatrics Review, 2020.
WALLACE, J. Foot conditions in older adults. Clinics in Geriatric Medicine, 2019.