A onicocriptose infantil — popularmente conhecida como “unha encravada” — é uma queixa frequente nos consultórios de podologia e pediatria. Embora pareça simples, o manejo inadequado pode gerar dor intensa, inflamação, infecções recorrentes e alterações permanentes no formato da lâmina ungueal.

Em crianças e bebês, o cuidado deve ser ainda mais criterioso: a anatomia é diferente, o tecido é mais sensível e a resposta inflamatória tende a ser mais expressiva.

Este guia reúne prática clínica, evidências atualizadas e princípios de podopediatria para atuação segura e eficaz do podólogo.


1. Por que a onicocriptose infantil é diferente?

A unha da criança apresenta particularidades:

  • Curvatura natural mais acentuada

  • Lâmina fina e maleável

  • Pregas ungueais volumosas

  • Maior acúmulo de pele lateral

  • Comportamentos que favorecem microtraumas: chutes, corridas, quedas, calçados rígidos

Além disso, crianças pequenas não conseguem relatar dor corretamente, o que dificulta a identificação precoce.


2. Causas mais comuns

A literatura em podopediatria e a prática clínica apontam:

2.1. Corte incorreto das unhas

Cantos arredondados ou retirada lateral excessiva favorecem o encravamento.

2.2. Calçados inadequados

Modelos apertados, rígidos ou pequenos pressionam a borda ungueal.

2.3. Hiper-hidrose

A umidade amolece a pele e facilita a penetração da lâmina.

2.4. Deformidades congênitas

  • unhas em telha

  • mal-alinhamentos

  • pregas hipertrofiadas

2.5. Traumas repetitivos

Comum em crianças ativas ou praticantes de esportes.


3. Classificação clínica

A classificação ajuda a definir a conduta mais segura:

Grau I — Inflamação leve

  • Vermelhidão discreta

  • Dor à pressão

  • Sem secreção

Grau II — Inflamação moderada

  • Dor constante

  • Edema

  • Hipergranulação inicial (tecido de cicatrização)

Grau III — Inflamação grave

  • Grande edema

  • Hipergranulação exuberante

  • Secreção

  • Dificuldade para calçar sapatos

Nos graus II e III, é fundamental atenção redobrada e, muitas vezes, atuação conjunta com pediatra ou dermatologista.


4. Condutas seguras para o podólogo

A atuação deve ser baseada em protocolos específicos da podopediatria moderna.

4.1. Grau I

  • Higienização local

  • Afastamento delicado da prega ungueal

  • Orientação de corte correto

  • Aplicação de curativo protetor

  • Uso de silicone de proteção (quando indicado)

4.2. Grau II

  • Redução cuidadosa da espícula, sem gerar ferimento

  • Análise da hipertrofia lateral

  • Curativo descompressivo

  • Monitoramento rigoroso em 48–72h

  • Encaminhamento se houver sinais de infecção

4.3. Grau III

Não é recomendado realizar procedimentos invasivos no consultório de podologia.

Conduta:

  • controle da dor

  • higienização

  • curativo

  • encaminhamento imediato ao pediatra / dermatologista

  • registro em prontuário


5. Estratégias práticas baseadas em podopediatria moderna

5.1. Orientação aos pais

Ensine sempre:

  • cortar a unha reta

  • evitar retirar cantos

  • checar sapatos com o “teste do dedo”

  • evitar meias apertadas

5.2. Avaliação de calçados

Ajustar numeração e flexibilidade resolve até 40% dos casos.

5.3. Controle da umidade

  • meias respiráveis

  • troca durante o dia

  • talco antisséptico (quando indicado)

5.4. Prevenção de reincidência

Algumas crianças têm predisposição anatômica.
Nestes casos, o acompanhamento contínuo é essencial.


6. Quando encaminhar ao pediatra?

Encaminhe sempre que houver:

  • febre

  • secreção purulenta

  • hipergranulação exuberante

  • dor intensa

  • falha terapêutica após 3 atendimentos

  • suspeita de enfermidades dermatológicas

Encaminhamento bem documentado valoriza o trabalho do podólogo e fortalece a atuação multidisciplinar.


7. Como evitar o trauma psicológico da criança?

A abordagem humanizada faz toda a diferença:

  • linguagem simples

  • mostrar os materiais antes

  • permitir que a criança toque nos instrumentos

  • usar metáforas lúdicas

  • não forçar procedimentos dolorosos

O medo pode transformar um caso simples em uma crise emocional e dificultar atendimentos futuros.


8. Perguntas frequentes dos pais

“Pode colocar água quente?”
Ajuda no alívio, mas não resolve a causa.

“Pode usar remédio caseiro?”
Evite. Pode piorar a inflamação.

“Precisa de antibiótico?”
Apenas o pediatra pode indicar.

“Podólogo pode atender bebê?”
Sim, desde que siga protocolos de podopediatria e não realize procedimentos invasivos.


9. Conclusão

A onicocriptose infantil exige técnica, delicadeza e capacidade de comunicação com pais e crianças.
Quando observada precocemente e manejada com protocolos apropriados, evita dor, infecções e sequelas futuras.

A atuação do podólogo é essencial — especialmente na educação familiar e no acompanhamento prolongado.


Referências (ABNT)

 

ALVES, J. Protocolos de Podologia Clínica. 2024.
SILVA, A.; LOPES, F. Podopediatria Moderna: fundamentos e práticas. São Paulo: 2023.
TOLEDO, I. Identificando patologias ungueais em crianças. Revista Digital de Podologia, 2022.
BRUNNER, V.; et al. Ingrown toenail in children: clinical approach and management. Pediatrics Review, 2020.
BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à Saúde da Criança. Brasília: 2021.